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A arte de viver uma tragicomédia

A arte de viver uma tragicomédia

Auto da Barca do Não Querer Fazer Nenhum (versão personalizada)

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas? Que longe estou do que fui há uns momentos!

 

Álvaro de Campos

 

(A cortina sobe)

Sala de Estar: BF está no sofá, de comando na mão, a ver, pela terceira vez, a primeira temporada de  How I Met Your Mother. Entra a Razão, pela direita, de vestes brancas, onde cintilam as letras do contrato de trabalho de Diretor/a de não-sei-quê, empunhando o livro mais recente de Yuval Noah Harari numa mão e a tese por fazer na outra.

 

Razão: Assim, não sei onde vamos parar, BF.

BF: Como assim?

Razão: Então, não estavas contente com o teu novo cargo? 

BF: Estava... mas agora, não sei....

Razão: Mas não querias deixar a tua marca num projeto? Dar o teu melhor? Ainda por cima conheces a área. Estudaste e trabalhaste para isto! Não querias sucesso profissional?

BF: Pois, eu sei. Tudo isso é verdade. Só que não me apetece trabalhar... lá, isto é... nem eu percebo porquê...

Razão: Inacreditável!! E não querias publicar?

BF: Mas não me apetece investigar.

Razão: E não querias saber muito? Ter muita cultura? 

BF: Mas não me apetece ler...

Razão: E não querias aquele lugar espetacular depois deste que tens agora?

BF: Mas não me apetece estudar...

Razão: Não mereces nada!! Vai para o raio que te parta!!!

BF: Mas estou tão bem no sofá...

(O Coro entra, pela esquerda)

Ingratidão e Insatisfação: Muuuuuhahahahahahahahahahahahahahahah 

 

Cão, Weimaraner, Focinho, Cansado

Crédito da imagem: https://pixabay.com/pt/photos/lazy%20dog/

Não me falem de problemas depois das 6h da tarde.

O problema mental que apresento a seguir é deveras incomodativo para quem padece deste mal e para quem convive com o enfermo, na eventualidade de ainda lhe restarem amigos ou família com boa vontade suficiente de lhe dirigir a palavra. Depois das 6h de tarde, sobretudo, ou, se não guardarem rancor, a qualquer hora do dia seguinte.

A questão é esta: depois de um  dia de trabalho, não me apetece falar. Mais especificamente, não me apetece prosseguir um diálogo estruturado, cheio de planos para os dias seguintes e de considerações sobre o dia que passou. Por norma, e por educação, ouço as pessoas. Compreendo-as. Têm necessidade e vontade de falar comigo. E, por isso, ouço. Vou dizendo "hm, hm" e "pois" para não mostrar desinteresse. Além disso, não quero que pensem que não me interessa o que dizem. Interessa e muito. Mas durante o dia. Ao fim do dia e, especialmente, à noite, só ouço um mar de palavras e fico à espera que o discurso acabe.  E só me apetece dizer "Opá, cala-te!". Mas está tudo controladinho...

Posso manter um diálogo. Mas daqueles que são só desconversa, que nos fazem rir e nos fazem descontrair. Isso, ok!

Mas, por favor, não me façam falar da vida diária depois das 6h da tarde por muito mais de 10 minutos, pelo menos. Não consigo.

Todas as decisões que tomo, toda a minha lucidez, está circunscrita ao horário de expediente. 

Não me peçam opiniões depois das 6h da tarde, a não ser que sejam opiniões parvas. Aí, ok! Não me peçam para falar de assuntos sérios depois das 6h da tarde. Está demasiado calor para pensar depois dessa hora... 

E, se quiserem falar comigo, usem menos palavras... Tantas palavras que as pessoas têm para dizer, com tantas sílabas... Parece que tenho água a correr-me nos ouvidos. É tudo o que ouço quando a enxurrada é de palavras. 

A última vítima foi a minha mãe:

Mãe - "Pronto, já percebi que, a partir de uma certa hora, não se pode falar contigo! Mas eu vou dizer o que tenho para dizer na mesma e tu vais ter de aguentar. "

Eu - "Por mim, tudo bem, mas já sabes que, a esta hora, não dou opiniões."

Mãe - "Quero lá saber!"

Eu - "Ok, dá-lhe!" 

E lá acabei por dar opinião. Gostei da provocação... :-) E mãe é mãe...

Mas, por favor, não me peçam mais do que isto. Só ouço chuááááá... chuáááááá´...

Annoyed dog 1.jpg

 

 

O dia em que descobri que... eu...nem sei...

Aquele dia mudou tudo na minha vida. Nunca me tinha passado pela cabeça. Andava esta pessoa (eu), posta em sossego, com a leveza de quem saltita de nenúfar em nenúfar, na certeza de que a minha personalidade ponderada me livrava daqueles detalhezinhos irritantes que caracterizavam as personalidades alheias. Eu... que, em tempos, terminei uma relação porque a pessoa, de cada vez que bebia alguma coisa, por cada gole, fazia "aaaaahhhhh". Cada gole, cada "aaaaaahhhh". Eu que revirava os olhos sempre que ouvia alguém a mastigar de boca aberta. Sim, porque quem mastiga de boca aberta faz sons, como todos sabemos, e nem precisamos de olhar para saber que aquele bolo alimentar se está a constituir naquela boca à frente de todos; eu... que abanava a cabeça em reprovação sempre que algum português dizia "Seriously?!?!?!?" ou "Whatever..." em vez de "A sério?!?!?!?" ou qualquer tradução prática de whatever. Eu que mudava de lugar no metro cada vez que alguém roía as unhas ostensivamente à minha frente; eu... que dava um empurrãozinho, digamos, ao de leve nas escadas rolantes àqueles que decidiam ficar a descansar do lado esquerdo, que toda a gente sabe que é para circular... Todas estas coisas me irritavam, e irritam, e posso jurar que é por causa delas que me começam a nascer cabelos brancos... 

Mas, naquele dia, descobri... algo que... Bem, aqui vai.

Estávamos nós num aeroporto de uma cidade europeia, à espera do avião que nos traria de volta. A minha amiga lia e eu saltitava de felicidade porque o meu mp3, que tinha rádio, tinha, sabe-se lá como e de forma meio fanhosa, apanhado uma estação de rádio que passava música dos anos 80. Percebi que a minha amiga, por algum motivo, não tinha ficado muito contente com este acontecimento, mas pensei que fosse impressão minha, que estivesse cansada. De repente, um aviso (na língua do país em questão): "o avião com destino a Lisboa vai partir com uma hora de atraso". Por mim, tudo bem. Não havia nada a fazer, não havia por que me chatear. Tinha um café ali ao lado, tinha a minha música... estava tudo bem. Mas a minha amiga ficou muito agitada. Disse-lhe "Tem calma, é só uma hora. Não é o fim do mundo". Ao que ela, de olhos esbugalhados e voz esganiçada de irritação, respondeu: "Pois! É só mais uma hora! É só mais uma hora a ouvir-te cantarolar!! Vais cantarolar o tempo todo, não vais? Especialmente no avião, quando já não tiveres música!! Vais cantarolar, não vais???" E aí estava: eu era irritante. Eu cantarolava... 

A notícia caíu-me na alma como quando uma pedra parte um vidro. Também eu era irritante... Quantas vezes teria irritado outros? Quantas vezes teriam mudado de lugar, revirado os olhos por causa do meu hábito irritante?

Que relações teriam ficado pelo caminho, que amizades teria perdido? Perguntei-lhe: "Mas isso é irritante??" Ela: "É!! É muito irritante!!" A minha alma estava parva. Nunca ninguém, nem ela, que era a minha melhor amiga, me tinha dito nada... Disse-lhe que ia tentar parar. 

Mas não parei. Em vez disso, abracei este meu hábito irritante porque parece que estou sempre alegre. E, embora, de vez em quando, pareça uma pessoa maluquinha a cantarolar baixinho, cantarolarei. Continuarei a cantarolar. Faz-me feliz. Cantarolarei enquanto a voz não me doer... E continuarei a revirar os olhos a todos quantos me irritarem, mesmo que os seus hábitos irritantes os façam felizes. Cantarolarei e revirarei. 

Cantarolar.JPG

 

 

Porque até o pastel de nata peca...

A TVI24 resolveu fechar o ano a contribuir não só para a cristandade da pastelaria tradicional portuguesa, como para a riqueza do léxico português, sem esquecer a antropomorfização de bolos e demais tartes. Não sei o nome do livro, mas imagino que seja algo como "Eu, Pastel de Tentúgal, me confesso".

IMG_20171231_182944[1].jpg

 

 

O nome do blog

Uma noite destas, acordei com uma dor lancinante aqui para os lados da zona lombar.

Doía tanto, que, de pé já não me conseguia sentar, e já de volta à cama não me conseguia levantar. Foi divertido, porque me doía pra xuxu na posição deitada, mas não me conseguia levantar, e, quando conseguia, doía que sei lá o quê, mas, como não me conseguia deitar, nem sentar... E por que é que eu precisava de me sentar? Porque, com o stress, tive uma quebra de tensão. Portanto, nem sentar, nem deitar, nem andar, nem nada... Só as dores nos lombos e os suores frios da quebra de tensão...

E foi isto o resto da noite, a coxear, a chamar pela Nossa Senhora e a pensar que tinha de me vestir para ir ao hospital. E, apesar da mais absoluta agonia, achava que era melhor dar uma aspiradela na sala antes de chamar a ambulância.

Bem, a páginas tantas, a dor lá passou e eu adormeci. No dia seguinte, parecia que não tinha acontecido nada... Nem dores, nem dormências, nem nada.

Contei a uma amiga a tragédia da noite anterior. Vieram-nos as lágrimas aos olhos de tanto rir. Basicamente, esta é a história da minha vida nos últimos tempos: uma tragicomédia.

É que, perante as ocorrências dos últimos tempos, só posso reagir das seguintes formas: com um " Epá, a sério?!?!?" ou um encolher de ombros, resignado, seguido de um suspiro e de um "Obviamente"... Todas hilariantes...

Ciática.JPG

 

 

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